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Aninha, ex-líbero do Curitiba Vôlei, faz denúncias contra o clube; coordenadora do projeto diz que "nada condiz com a verdade"

Atleta do Vôlei Curitiba desde o começo do projeto, em 2016, a paulista de Itu afirma que o clube não cumpriu com obrigações salariais previstas em contrato e também com auxílio-moradia, prometido pela idealizadora da equipe, Gisele Miró.

23/06/2020 às 19h48 Atualizada em 28/04/2021 às 20h39
Por: Redação
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Aninha, ex-líbero do Curitiba Vôlei, faz denúncias contra o clube; coordenadora do projeto diz que
Os bastidores do vôlei curitibano estão agitados após uma série de denúncias da ex-líbero Aninha ao Blog do Bruno Voloch, do Estadão, no último domingo (21). Atleta do Vôlei Curitiba desde o começo do projeto, em 2016, a paulista de Itu afirma que o clube não cumpriu com obrigações salariais previstas em contrato e também com auxílio-moradia, prometido pela idealizadora da equipe, Gisele Miró.
 
Em entrevista ao Conexão News, a atleta descreveu momentos de angústia durante sua trajetória em um dos projetos mais elogiados da Superliga feminina e ainda apresentou algumas provas. "Vi uma oportunidade de realizar meu maior sonho dentro do esporte que era estar numa Superliga A. Abracei o projeto com todo o meu amor, me doei por inteira. A minha maior decepção foi ter confiado muito, foi ter confiado principalmente no meu maior sonho que na verdade virou pesadelo", desabafou.
 
 
Sem moradia
 
Os problemas de hospedagem, segundo a ex-líbero, tiveram início em sua segunda temporada na equipe. A primeira situação ocorreu logo depois da renovação de contrato, após outra atleta ter problemas familiares e solicitar uma nova moradia ao clube.
 
Segundo Aninha, o clube então ordenou que ela deixasse o flat onde vivia para dar lugar à atleta. “Eles não arrumaram outro local para eu morar. Tive que passar a noite na casa de uma outra atleta de favor, com 3 malas enormes e todas as minhas coisas. Eles me deram apenas 2 horas para fazer a "mudança". Me senti horrível, descartável. Foi um dos piores dias para mim”, disparou.
 
Alguns dias depois, o destino de Aninha foi a casa de Gisele, onde viviam outras jogadores do clube. A ex-líbero reforça que sempre manifestou o desejo de receber moradia como as demais integrantes do grupo, e diante das promessas, renovou contrato para sua terceira temporada no Curitiba Vôlei.
 
Quando retornou para o dia da apresentação, sem moradia específica, Aninha voltou para a casa da idealizadora da equipe, mas precisou deixar o local. “Logo depois de alguns dias, ela [Gisele] me pediu um favor. Ia chegar uma estrangeira para a equipe e ela não tinha conseguido a moradia para ela [atleta estrangeira] ainda, então pediu se eu poderia ficar alguns dias na casa da minha sogra, que é daqui de Curitiba, isso só até ela conseguir um apartamento para a estrangeira”, contou.
 
Os dias viraram meses, e na metade da temporada - que tem duração de dez meses - Aninha continuava vivendo de favor na casa da sogra. O local era distante da Universidade Positivo, onde eram realizados os treinos, e para chegar até lá a atleta pegava dois ônibus e ainda precisava caminhar por 30 minutos. Foi quando ela pediu uma ajuda de custo para o transporte. “Não consegui nenhuma ajuda de custo. Eu tinha um salário super baixo, fazia o máximo para ajudar a minha família, ajudava as despesas na casa da minha sogra, e ainda tinha que pagar as passagens de ônibus praticamente todos os dias e eram quatro passagens, contando ida e volta”.
 
A temporada acabou e Aninha continuou vivendo no mesmo local. Para a temporada 2019/2020 a atleta exigiu que o clube então ajudasse no pagamento de um aluguel, como fazia com as demais jogadoras. Gisele concordou, mas segundo Aninha essa foi mais uma promessa quebrada. “Achei o apartamento onde estou morando em setembro de 2019. Estamos em junho de 2020 e não recebi nenhuma ajuda para o aluguel em todos esses meses”, concluiu.
 
Procurada pela reportagem, Gisele respondeu que o clube sempre cumpriu com suas obrigações de moradia. Por mensagem, a ex-tenista afirmou que os pedidos foram atendidos, mas a atleta foi viver em sua casa pois não havia gostado da acomodação. Em relação à atleta estrangeira, disse que foi escolha de Aninha deixar o local por não querer dividir o quarto com a atleta.
 
 
Aninha afirma que o quarto tinha apenas uma cama.
 
 
Atrasos salariais
 
A ex-atleta do Curitiba Vôlei descreveu que foi na última temporada 2019/2020 que os problemas de atrasos salariais começaram no clube. "Os salários começaram a atrasar no mês de Dezembro. No nosso contrato está escrito que cada dia de atraso ela pagaria uma certa porcentagem que nem isso foi pago e também que ela tinha que nos pagar ate o mês de Maio. Nos meses de Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março foi uma confusão. Ela depositava 500 reais numa semana, na outra depositava mais 1.000 reais e assim ia".
 
Aninha ainda afirmou que os meses de abril e maio não foram pagos a nenhuma atleta. Gisele Miró, coordenadora do Curitiba Vôlei, disse que tudo foi pago corretamente. "Com relação aos pagamentos, tudo foi pago dentro do que previa o contrato e a própria Aninha me mandou os comprovantes, tenho aqui".
 
Entretanto, a líbero descreveu que uma cláusula contratual afirmava que quando houvesse atraso salarial, o clube deveria arcar com juros em cima do valor devido, a atleta confirmou que nunca o pagamento desses juros foram feitos. "Não depositava o tal juros que era o que está escrito no contrato".
 
Nossa equipe teve acesso a cláusula contratual em questão que confirma a obrigação do clube em arcar com juros quando tivesse atraso salarial. Aninha ainda mostrou uma conversa que teve com a coordenadora do clube sobre os pagamentos e citou que não aceitou o acordo proposto pelo Curitiba Vôlei após o encerramento da temporada.

 

 
 
 
Universidade Positivo
 
A atleta elogiou muito a estrutura da Universidade Positivo, sede da equipe, a universidade em parceria com o clube seguiu moldes norte-americanos e fazia com que todas as atletas frequentassem algum curso dentro da instituição com bolsa de 100%. "A estrutura da Positivo sempre foi muito boa. Eles apoiaram muito a gente. Deram bolsas de estudo e varias outras coisas".
 
Aninha só se lamenta de um caso, o qual ainda guarda lembranças muito ruins. "A Universidade Positivo junto com o Curitiba Vôlei disseram que iam cuidar dos nossos dentes, iam dar do melhor pra nós. Em uma das consultas os dentistas disseram que eu teria que tirar 6 dentes meus (4 sisos e 2 dentes de leite) e disseram que seria melhor assim e que colocariam próteses e aparelho, ou seja, tratamento completo. Eu sou de uma família humilde, minha família não teria e não tem condições de me ajudar com um tratamento desses então junto com a equipe decidimos que tudo bem, que eu ia fazer todos esses procedimentos com o aval deles. A cirurgia da retirada dos dentes foi assustadora, fiquei horas deitada na maca com a boca aberta com vários alunos em volta, cada um fazia uma coisa, deram várias anestesias e nenhuma pegava. Cada aluno tirou um dente meu, eu senti tudo. Nunca senti tanta dor assim na minha vida. O combinado entre nós atletas, Curitiba Vôlei e Universidade Positivo era que os professores ou alguém responsável iria fazer qualquer tipo de procedimento nas atletas e não foi o que aconteceu. Foi a pior experiência da minha vida. Até hoje o tratamento não foi concluído. Continuo sem meus dentes e muitas vezes não consigo me alimentar direito com por conta disso", afirmou.
 
O CN entrou em contato com a coordenação de Odontologia da Universidade Positivo para comentarem sobre o caso, mas até o fechamento desta reportagem não houve um retorno deles.
 
 
 
Cirurgia no joelho e falta de amparo do clube
 
Aninha ainda descreveu que após a cirurgia de uma lesão que teve no joelho não houve nenhum apoio do clube visando sua recuperação. Ela ainda citou o pedido de uma ajuda de custo para ir até a clínica de fisioterapia, mas que o clube não deu. Segundo a atleta o único que a ajudou foi o então técnico Duda Nunes, que diversas vezes pagou seu deslocamento da residência onde morava até a clínica de fisioterapia.
 
"Logo quando fiz a minha cirurgia em fevereiro, eu precisava já começar a minha recuperação, até pra dar tempo pra jogar na próxima temporada. Por um tempo eu fiz fisio na clinica L'equipe com a Ana Rabelo que sempre me ajudou muito em todo esse meu tempo aqui. Só que a clinica é longe de onde eu moro. Tentei conseguir uma ajuda de custo para locomoção com o time mas eles não deram. Por muitas vezes quem pagava as minhas idas e vindas da fisio e ate mesmo pro ginásio era o técnico Duda, que também me ajudou muito. Tinha dias que eu ia a pé para a fisioterapia mas como a minha cirurgia era muito recente estava fazendo muito mal ao meu joelho (era 1 hora de caminhada). Mas com os salários atrasados não tinha como aguentar isso por muito tempo. Até que chegou um momento que eu não tinha mais dinheiro pra poder ir pra fisio e comecei a fazer o tratamento em casa com vídeos no youtube. Depois de um tempo consegui, alem da ajuda da Ana Rabelo, a ajuda de outros fisioterapeutas de outras equipes que sensibilizaram com tudo isso".
 
Atualmente a líbero continua realizando sua recuperação em casa por falta de dinheiro e afirmou que o clube não tomou nenhum posicionamento para auxilia-la. De acordo com o contrato entre as partes, o clube tem obrigação em arcar com todas as despesas de recuperação da atleta.
 
Manifestação da categoria
 
Depois das denúncias de Aninha, outras atletas que já defenderam a camisa do Curitiba Vôlei se manifestaram. Mariana Galon, ex-levantadora, precisou se aposentar das quadras após descobrir uma doença cardíaca e desabafou em um comentário nas redes sociais. “Isso é só um exemplo em um time, mas infelizmente isso acontece no Brasil todo. Nós atletas não somos tratados como seres humanos e sim como máquinas, sem sentimento algum e é muito triste”, afirmou.
 
Em entrevista ao blog de Bruno Voloch, no Estadão, Mariana relatou a dificuldade vivida na equipe da capital paranaense, em especial após o diagnóstico que a impediu de seguir as atividades. Ela chegou a trabalhar de graça para a equipe fora de quadra, mas quando solicitou uma ajuda de custo recebeu resposta negativa. “Percebi que era o fim do meu vínculo (infelizmente) com o Curitiba. Eu totalmente perdida, sem amparo nenhum do clube, desesperada”, disse ao blog.
 
Quem também se manifestou ao blog de Voloch foi Carol Westermann. Assim como Aninha, a ponteira acusa o Curitiba Vôlei de não oferecer suporte após se lesionar em um treino em 2018, quando a equipe se preparava para a disputa da Superliga B Feminina. O clube foi campeão, enquanto o quadro clínico de Carol no pós-operatório evoluiu para uma trombose.
 
Hoje atuando no Peru, a atleta relembrou ao blog que precisou pagar medicamentos, deslocamento e até mesmo academia para reabilitação com dinheiro do próprio bolso. “Na época eu não tive suporte nenhum. Era como se eu não existisse. O meu maior suporte mesmo foi a minha família”, desabafou ao blog.
 
 
Posicionamento do clube
 
Gisele Miró, coordenadora do projeto do Curitiba Vôlei, disse que ela e o clube vão se posicionar judicialmente. "Nada condiz com a verdade", finalizou.

 

 

*Colaborou Guilherme Dias

 

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